
Em uma gelada noite de lua crescente, um pouco antes do solstício de inverno. Eu e mais quatro homens montamos acampamento próximo à trilha no caminho entre as cidades de Upan e Ardranak, na floresta dos sussurros. Um pouco antes das montanhas de Eloina.
Orth estava preparando uma estrutura de gravetos e pedaços de lenha improvisada sobre algumas folhas secas a fim de acender uma fogueira. Ranik havia preparado um espeto com um pedaço de galho de almondeira selvagem enquanto Umbauma aguardava próximo a Orth, já com as forquilhas preparadas para sustentar o espeto.
Iríamos assar a carne do atiff que Ileus e Umbauma haviam caçado.
Naquela época, era comum mercenários se reunirem e seguirem em viagem para os lugares que tinham guerra, a fim de oferecerem seus serviços aos reinos em conflito, que eram muitos.
— Zip, pega essa casca de palmeira e dá uma abanada aqui para ajudar a reforçar a chama — Orth me pediu enquanto colocava mais gravetos em cima do fogo recém iniciado para alimentar a chama que já começava a estourar lambendo a lenha apoiada acima.
— Finca as forquilhas aí, Umbauma. Vamos colocar a carne para assar — disse Ranik já com a carne do atiff trespassada no espeto.
Atiff é um tipo de porco-do-mato que vive nestas regiões do Norte. Ele não é muito grande, mas é muito resistente e difícil de abater. Esse tomou duas flechadas certeiras do arco de Ileus. Cambaleou, mas continuou avançando e só parou quando Umbauma o trespassou com a lança e o manteve no chão enquanto ele se esperneava antes de finalmente morrer.
Sua carne é um pouco dura, por esse motivo teríamos que assar por pelo menos uma hora enquanto íamos regando aos poucos com azeite de palma e tempero, virando no espeto de tempos em tempos. Apesar de dura, ela tem bastante gordura que, quando bem assada, ajuda a amolecer a carne.
Nos sentamos em volta da fogueira para nos aquecermos e aguardarmos a refeição ficar pronta.
Orth e Ranik eram nortistas destas bandas mesmo, sendo que Orth era mais velho e experiente, tendo visto pelo menos uns 45 verões. E isso para um mercenário não era o mais comum. Assim, Orth era bastante respeitado por todos. Por esse motivo, e pelo fato de ser bastante forte e ágil mesmo com sua espada longa de duas mãos. Já o vi partir o crânio de um inimigo em dois, durante uma batalha.
Ranik e Ileus tinham apenas 20 verões. O primeiro, mais baixo, lutava com uma espada e um escudo, o segundo, alto e magro, era ótimo arqueiro. Era o maior corredor entre nós. Trazia uma espada na cintura que só usava como último recurso, pois preferia atacar à distância.
Umbauma, um guerreiro feroz, de pele muito escura, alto e musculoso. Era o único que não usava proteção de couro ou malha. Estava sempre de peito desnudo mesmo no frio que fazia de noite naquela floresta. Usava apenas uma tanga de pele de tigre e sandálias. Suas armas preferidas eram uma lança grande que ele podia manobrar com agilidade sem igual e uma faca de osso. Vindo das tribos do sul, ele era o mais exótico da nossa pequena expedição. Muito silencioso, conseguia andar pela floresta como uma sombra, sem fazer nenhum barulho. Sabia cercar os inimigos por trás e matar sem chamar atenção. Não sei sua idade, mas era mais velho e experiente que Ranik e Ileus.
E eu era ali o segundo mais experiente. Aos 34 verões, já havia lutado muitas batalhas. Todos me chamam Zip, mas meu nome é Zipareus. Sou de Ortilhas do mar do leste e já havia viajado bastante, tanto em mar, quanto em terra.
— Ranik, me dê um pouco dessa cerveja — pediu Ileus esticando a mão.
O garoto passou a garrafa de jeki para o amigo, uma espécie de cabaça utilizada para transportar líquidos. Enquanto Orth e Umbauma compartilhavam um cantil de vinho.
— Quer um pouco de vinho, Zip? — perguntou Orth, me estendendo seu cantil.
— Não, obrigado. Prefiro beber só água quando estou em viagem.
— E por que isso, Zip? — questionou Ranik.
— Prefiro estar sóbrio se eu tiver que lutar. Já vi o que a bebida faz com os reflexos de um homem numa batalha e não é bonito de se ver o resultado.
— Zip fala com sabedoria — disse Umbauma —, não estamos em lugar seguro.
— Vocês são muito fracos — disse Orth rindo enquanto levantava o cantil para tomar uma enorme golada —, mas não estão errados. O homem precavido vive mais. Eu só estou vivo porque os Deuses gostam de mim.
Todos riram, mas eu sabia que essa bravata era só da boca para fora. Orth fingia desleixo, mas era um homem preparado. Não estaria vivo ainda se não estivesse sempre precavido. Ele sabia até onde poderia beber e, além disso, era bastante resistente à bebida. Não se embebedaria apenas com um cantil de vinho que era tudo o que ele tinha.
— Como serão as mulheres de Upan? Quero chegar logo, encontrar uma meretriz que não seja muito cara, mas que saiba se mexer debaixo de um homem. Dormir numa cama mais confortável que o chão da floresta — reclamou Ranik colocando a mão nas costas e fazendo uma careta.
— Nenhuma cama de palha é mais confortável que o chão da floresta — observou Umbauma que estava acostumado a dormir ao céu aberto.
— Não! — reclamaram todos em uníssono.
— Você é filho da onça, Umbauma. Seu ambiente é a mata porque você é meio selvagem — brincou Orth.
Orth e Umbauma eram bastante amigos. O único a quem o gigante de pele escura permitia esse tipo de brincadeira. Uma vez, Ranik quis fazer uma brincadeira com Umbauma dizendo que ele não sabia como era a vida em uma casa de pedra. Como resultado, quase morreu asfixiado. As mãos de Umbauma ficaram marcadas no pescoço de Ranik e a sorte dele foi que Orth o impediu porque, sozinho ele seria incapaz de se soltar do aperto poderoso.
— As meretrizes de Upan são como as de qualquer outra cidade grande. Cansadas e cheias de piolho. Quero mesmo é encontrar uma mulher para chamar de minha — disse Ileus antes de tomar um grande gole de cerveja.
— Você é um jovem com cabeça de velho, Ileus — disse Orth com um sorriso que lhe fazia marcas de expressão nos cantos dos olhos.
Eu sempre fui o mais calado do grupo. Gostava de observar. Escutava tudo que meus companheiros diziam com suas palavras e tudo aquilo que eles não diziam, mas que eu podia ler nas entrelinhas.
E eles conversaram mais. Conversaram sobre mulheres e sobre deusas. Sobre como era fácil um homem perder a cabeça por conta de uma mulher bonita. E de como as mulheres bonitas, quando jovens, conseguiam ser tão inconsequentes quanto os homens. Até mesmo Umbauma falou, com saudosismo e orgulho, sobre as mulheres guerreiras de sua aldeia.
O tempo passou, a carne ficou pronta e todos comemos.
Quando todos se aquietaram com seus estômagos cheios, Orth ficou um pouco contemplativo enquanto atiçava o fogo com um graveto e, depois de algum tempo, falou:
— Houve um tempo, na floresta de Ulmak, vizinha de Rejkesh, a vila onde cresci. Lá estava de passagem um jovem viajante, amigo meu. Ele viajava de Rejkesh para Shantal, vizinha de Upan. O caminho entre a vila e a cidade poderia ser feito em uma linha reta através do vale do torto ou contornando o vale, por trás do rio Estax e passando por trás das montanhas Vajari — enquanto falava, Orth desenhava no chão de terra com o graveto que estava usando para atiçar o fogo.
Fez dois círculos, um menor representando a vila, e outro maior representando a cidade. E entre eles, traçou uma reta que demonstrava o caminho por dentro do vale e uma semicircunferência, do lado direito, para mostrar o caminho que contornava o vale. Próximo da circunferência que representava a cidade de Shantal, fez um desenho de duas letras v invertidas e sobrepostas, representando as montanhas Vajari. Delas desenhou duas ondulações que vinham acompanhando a semicircunferência, era o desenho do rio Estax. Então continuou a descrição:
— Todo mundo sabia que o caminho pelo vale era mais perigoso. Aquele era um vale encantado onde pessoas sumiam para nunca mais se ouvir falar delas e onde, diziam, viviam criaturas sobrenaturais. Era justamente por isso que os mais velhos de nossa aldeia sempre recomendavam o caminho que contornava o rio. Segundo eles, era mais distante, mas mais seguro. Acontece que meu amigo era cabeça dura e tinha pressa.
— Ele foi pelo vale? — Questionou Ileus curioso com um brilho no olhar. O mesmo brilho das crianças que escutam os adultos contar as histórias e lendas.
E Orth era um bom contador de histórias.
— É claro que ele foi pelo vale! — Retrucou Ranik empurrando Ileus pelo ombro — Deixa de ser burro! Se ele não fosse pelo vale não ia ter história. Nesse tipo de história, sempre tem alguém que faz uma coisa estúpida!
— E você acredita em criaturas sobrenaturais? — Perguntou Umbauma em tom zombeteiro, com um sorriso irônico no rosto, enquanto olhava para Ranik.
— Acredito que a gente deve escutar o conselho dos mais velhos! — o garoto respondeu se defendendo, sem querer dar o braço a torcer.
— Sou eu que estou contando a história ou são vocês? — Orth cortou a discussão de forma áspera.
— Você, é claro! — Respondeu Ranik, um pouco encabulado.
— Pode falar, Orth — disse Ileus curioso para saber o resto da história.
Umbauma apenas observava com um sorrisinho no canto da boca. Gostava de cutucar o garoto, mas ele mesmo acreditava em coisas sobrenaturais e já dissera ter visto coisas, nas florestas de Zanitiele, que não eram deste mundo. Essa era a floresta onde ficava sua aldeia natal e, segundo ele mesmo afirmava, onde também existia uma tribo de homens leopardos.
Então Orth continuou sua história, a qual descrevo a seguir.
Ermatu andava com cuidado por entre a mata densa portando sua espada, a qual utilizava para abrir caminho. Já entrava no final da manhã quando chegou a uma clareira.
No centro da clareira havia um pedestal, e acima deste, a estátua de uma deusa desconhecida.
O rapaz se aproximou para observar melhor. A estátua de pedra, representava a figura de uma mulher muito bonita, vestida de forma simples como uma camponesa, com o longo cabelo preso para trás com alguns ornamentos floridos. A parte de trás da estátua estava totalmente coberta por trepadeiras que, por algum motivo não cresceram na parte da frente.
Foi então que Ermatu observou que, aos pés da estátua, haviam sido depositadas algumas flores ainda frescas.
Com muita atenção, mantendo a espada em mãos, vasculhou tudo a seu redor, mas não viu mais nada que chamasse atenção. Resolveu que era melhor seguir em frente.
Saindo da clareira e seguindo para o norte, havia uma trilha, pela qual Ermatu seguiu já que era mesmo para aquele lado que ele tinha que ir. Redobrando sua atenção, procurou andar o mais silenciosamente que conseguia por entre as folhas caídas no chão.
Aquele era um lugar sabidamente inabitado, exceto por, seja lá o que fosse de não natural que havia ali. Pelo menos era isso que ele sempre aprendera com o povo de sua aldeia. Entretanto, alguém havia passado por aquela estátua e depositado aquelas flores, embora não houvesse rastros perceptíveis.
Conforme caminhava, Ermatu pensava na possibilidade de sofrer uma emboscada. Imaginou até que os boatos a respeito de seres não naturais e dos desaparecimentos, poderiam ser obra, não de criaturas sobrenaturais, mas de salteadores. Ademais, se existia uma trilha era porque o lugar não era completamente desabitado, já que a mata tomaria conta do caminho em pouco tempo sem uso.
O rapaz já havia avançado bastante na trilha, quando começou a escutar algo. Parecia um canto. Conforme caminhava, o som foi ficando mais nítido. Era uma voz feminina que cantava em um idioma desconhecido, aveludada, bastante melodiosa.
Ermatu era um homem jovem e descompromissado. E sem perceber o motivo, seu coração começou a bater mais forte. Continuou o caminho como que hipnotizado por aquele cantar suave que chegava aos seus ouvidos e inebriava seus sentidos. Quanto mais ele se aproximava, mais crescia em seu peito a vontade de conhecer a dona daquela voz tão bela.
Apertando o passo, o homem se apressou, mas, em um dado momento, o canto cessou. E o cessar daquela melodia quase despedaçou o coração de Ermatu. Com receio de não conseguir chegar a tempo para encontrar a dona da voz, seus passos deixaram de ser cautelosos e ele começou a andar mais rápido, quase correndo.
Em pouco tempo a trilha se ampliou, e logo após uma breve elevação, veio uma descida. E com ela, se revelou a vista de algumas construções de pedra. Parecia uma antiga cidade encrustada no meio da mata.
O rapaz voltou a caminhar com cautela embora a cidade parecesse inabitada. Logo ele chegou na primeira rua. Estranhamente, apesar de as construções parecerem ter sido abandonadas há muito tempo, a floresta não tomou o lugar completamente e as ruas estavam relativamente livres.
Mas as construções não tinham mais telhados, ou peças de madeira. Apenas arcos de pedra, fundações, estruturas e muros. Deveria ter sido uma civilização muito próspera. O que era estranho porque ele nunca houvera ouvido falar de uma civilização naquele lugar.
Ermatu já estava bem no meio da cidade, andando por uma de suas ruas principais quando sentiu alguém tocando em seu ombro por trás. Num susto, deu um pulo para o sentido oposto, se colocando em posição de alerta, com a espada em suas mãos.
Foi quando viu, parada em sua frente, a mulher mais bela que já vira em sua vida. Seu rosto era perfeito. Tudo muito proporcional e belo. Olhos, boca, nariz. Sua pele clara contrastava contra seu vestido negro e seu cabelo castanho escuro preso para trás com um pequeno arco de flores.
Ela estava descalça e seu vestido era bastante simples, mas seu olhar tranquilo era de um verde cristalino que lembrava o mar. Sua feição transmitia calma.
Ermatu abaixou lentamente sua espada, mas suas palavras fugiam à boca. A mulher se aproximou, levantou a mão e acariciou o rosto do rapaz que não conseguiu ter nenhuma reação. Ele só conseguia pensar em como a mulher era bonita e, conforme ela se aproximava mais, em como sua pele cheirava a rosas e flores-do-campo.
Quando deu por si, ela o beijava e o toque de seus lábios era como deixar de respirar e se entregar ao mais maravilhoso torpor. Era como olhar para um céu limpo, cheio de estrelas. Como sentir o vento bater no rosto trazendo os aromas suaves das flores dos campos. Era como se dissolver no universo e sentir o coração do mundo pulsar. Como flutuar na água do lago mais calmo num dia ensolarado de primavera. Era como se deixar levar. E ele se deixou levar.
O rapaz balançou a cabeça e se deu conta de que não estava mais no mesmo lugar. Ele estava caminhando, sendo guiado pela mulher que ia na frente o puxando pela mão. Sua espada estava na bainha em sua cintura, mas ele não se lembrava de como ela havia ido parar ali. Não se lembrava de tela embainhado. Se sentia um pouco aéreo, fora de si.
— Para onde você está me levando? — disse, e sua voz saiu estranha, ele a escutava como se fosse um eco. Como se não fosse ele que tivesse falado.
Ela ria e seguia na frente em passos saltitantes, puxando-o pela mão enquanto ele se esforçava por acompanhá-la meio cambaleante. Sua risada era graciosa e tinha um tom travesso numa deliciosa voz feminina. Ela o conduziu por muitas das ruas, cruzando esquinas, entrando em becos, saindo em outras ruas.
E quando ele olhou para os lados, a cidade estava viva. Muitas pessoas andavam cuidando de seus afazeres. As construções de pedra estavam todas completas com seus telhados, portas, janelas. Havia estalagens, vendas, residências.
Ela o conduziu por uma feira, desviando das pessoas, depois pelo meio de uma praça e de volta para uma das ruas principais da cidade. E ele simplesmente se deixava levar embevecido de amor.
Entraram na floresta seguindo pela mesma trilha pela qual ele havia chegado e foram até o pedestal, que estava estranhamente vazio sem a estátua que ele havia visto anteriormente, mas ele não reparou nisso naquele momento. Sua cabeça parecia rodar levemente como se estivesse sob o efeito de muitos canecos de vinho.
Então ela se voltou para ele, alisou seu rosto, seus lábios. Colou seu corpo ao dele, acariciou seus músculos fortes, entrelaçou seus dedos nos dele e o beijou apaixonadamente.
A única coisa que ele pôde fazer, foi se permitir beijar e se perder novamente em seus lábios sentindo o mundo sumir em um brilho solar. Como se nada existisse e ele flutuasse no infinito. Como se ele fosse o sol e ela a lua numa dança cósmica ao redor de um planeta qualquer. Como se os pelos de sua pele tivessem eletricidade própria e o ar estourasse em raios e relâmpagos e ele descesse da nuvem mais alta do céu para se descarregar espalhando pela terra em meros segundos. Como se seu corpo não mais existisse e ele estivesse espalhado no ar.
Ermatu acordou sozinho sentado no chão encostado contra o pedestal, ainda sentindo, na pele de seus lábios, o gosto campestre dos lábios da mulher que era agora dona do seu coração.
Teve dificuldade em se levantar. Todos os músculos do seu corpo doíam e uma sede enorme travava sua garganta. Se levantou gradualmente apoiando as mãos no pedestal. Estava amanhecendo e os primeiros raios do sol da manhã atingiam seu rosto.
Cobriu seus olhos com a mão porque se sentia como se estivesse saindo de uma caverna escura para a claridade do dia.
Sua cabeça doía e uma enorme fraqueza tomava conta de seu corpo. Voltou se arrastando para sua aldeia. Levou o dobro do tempo que levaria normalmente, pois tinha que parar a todo momento e se escorar em alguma árvore, dada a falta de força que sentia.
Quando chegou em sua casa, não falou com ninguém, apenas deitou em sua cama e dormiu até o outro dia pela manhã, quando se levantou faminto.
Durante o café da manhã, comeu por dois enquanto escutava um sermão de seu pai por não honrar o compromisso de efetuar uma encomenda num mercador em Shantal. Inventou uma desculpa e, quando conseguiu se ver livre da fúria do pai, se dirigiu para a floresta novamente, se vendo estranhamente atraído para aquele lugar.
No caminho, encontrou um amigo que, com muito custo, o convenceu a lhe ajudar a efetuar alguns reparos em sua adega. Como pagamento, este amigo lhe deu duas moedas de cobre e o convidou a ficar para o almoço. Como já estava ali, acabou aceitando, embora se sentisse angustiado querendo voltar para a floresta, pois quanto mais tempo passasse longe daquela mulher misteriosa, mais seu coração parecia estar partido.
Acabou contando, para Arshem seu amigo, a história do que acontecera e o amigo, é claro, ficara muito preocupado afirmando que ele estava enfeitiçado, que deveria procurar o curandeiro da aldeia. Mas Ermatu não aceitou.
No final das contas, ficou decidido que Arshem o acompanharia até a floresta. Ermatu estava um pouco contrariado, mas, não quis discutir mais, pois sua cabeça começava a doer e tudo o que pensava era em voltar para a floresta para procurar por sua amada.
Partiram logo após o almoço e já estava no meio da tarde quando chegaram na clareira.
Ermatu ia na frente e, parecia não ouvir seu amigo pedindo para que ele esperasse um pouco. Arshem havia enroscado sua calça em um arbusto de espinheiro de dragão. Quando se abaixou para soltar um dos espinhos que estavam enganchados na perna de sua calça, se desequilibrou com um pedaço de galho que estava abaixo de sua bota e acabou caindo por cima do espinheiro. Perfurando seu braço e mão direitos que utilizou para tentar se apoiar durante a queda.
Quando, por fim, Archem conseguiu se soltar do espinheiro e se levantar com sua mão e braço sangrando. Olhou para frente e viu seu amigo beijando uma mulher no centro da clareira, em frente a um pedestal de pedra.
Conforme eles se beijavam, a pele de Ermatu, perdeu a cor e começou a rachar. Em alguns segundos sua carne começou a esfarelar sendo levada pelo vento. Sobrando só a caveira que caiu no chão se desmanchando em uma pilha de ossos.
Depois disso a mulher abriu os olhos e olhou na direção de Archem que imediatamente desviou o olhar e saiu correndo desabalado pela floresta gritando apavorado.
— E dizem que Arshem só parou de correr quando chegou em sua adega em Rejkesh onde se trancou dentro de seu quarto e se recusou a atender qualquer pessoa — Orth terminou a história virando o restinho do cantil de vinho na boca.
Umbauma sorria olhando para o amigo. Ranik e Ileus olhavam atentos, de bocas abertas e olhos arregalados enquanto eu, sentado no chão, meditava sobre alguns dos detalhes dessa história que me haviam chamado atenção.
— Mas o que era essa mulher?… Ela era uma bruxa? — Ileus perguntava admirado.
Orth balançou a cabeça em negativa:
— Não se sabe o que ela era. Talvez uma Deusa da floresta, de alguma civilização antiga. O fato é que ninguém mais da minha aldeia se arriscou a voltar naquela clareira novamente.
— Mas por que seu amigo se desfez em pó? Ela amaldiçoou ele? — perguntou Ranik tão perplexo quanto Ileus.
— A mulher era uma devoradora de homens. Ela deve ter se alimentado do corpo e da alma do amigo de Orth — era Umbauma dando a sua interpretação.
Ileus colocou as duas mãos na cabeça e abriu mais ainda a boca como se tivesse acabado de compreender a história e aquilo o deixasse extremamente chocado.
— Será se isso exis…
Ranik, com cara de admiração, começava a dizer alguma coisa quando Umbauma pulou em cima dele gritando:
— Cuidado! Ataque! Pro chão!
Meus reflexos treinados entraram em ação imediatamente e eu já estava me jogando no chão para trás de um arbusto quando vi uma flecha rasgando o ombro esquerdo de Ileus que caiu no chão gritando de dor.
Se Umbauma não tivesse empurrado Ranik, a flecha teria acertado sua cabeça em cheio.
Depois disso, foi tudo muito rápido. Ajudei Ileus a se levantar e corremos para trás de uma rocha grande que estava há alguns metros de nós. Umbauma desapareceu na escuridão da noite. Orth gritava para Ranik permanecer no chão, mas o moleque tinha cabeça quente. Se levantou com o escudo na mão e a espada na outra. Avançou por alguns metros antes de ser alvejado por duas flechas no escudo e uma na perna, que o derrubou.
No outro instante Orth já estava conosco atrás da pedra, gritando para Ranik ficar abaixado.
Continuamos escutando flechas batendo na pedra e, no chão, tentando acertar Ranik.
Umbauma surgiu do nada a nossa direita, com sua faca de osso na mão, pingando sangue, e disse:
— Eles estavam em cinco. Dois espadachins e três arqueiros. Os espadachins tentaram cercar a gente por trás, mas eu já dei um jeito neles. Agora restam os três arqueiros que estão se protegendo atrás de árvores esperando a gente sair para nos acertar — ele sinalizou com a mão para mostrar a direção em que estavam os arqueiros — 30 passos, 50 e 60. Eu vou pegar o de trás e sinalizar. Depois tentarei distrair o do meio. Tentem pegar o da frente e depois o do meio.
— Hahhh! — era Ranik gritando. Haviam acertado outra flecha nele.
Orth fez uma careta enquanto Umbauma sumia novamente no escuro da noite.
— Garoto! Você consegue atirar?
Orth perguntou para Ileus que balançou a cabeça afirmativamente com semblante destemido apesar de estar segurando o ombro com a mão por cima do ferimento.
Ileus pegou seu arco, botou a flecha e ficou aguardando. Eu estava a seu lado segurando minha espada, pronto para atacar e Orth estava a nossa frente com as costas contra a pedra.
— Ileus, ao meu sinal — comandou Orth.
Aguardamos, tensos.
Em alguns minutos escutamos um barulho seco que, provavelmente foi um arremesso da lança de Umbauma, e logo em seguida, um rugido. Era o sinal. Orth olhou para Ileus, meneou a cabeça e, sem dar tempo para pensar, saiu correndo ecoando um grito de guerra enquanto levantava a enorme espada com as duas mãos.
— Haaaaaaaaa!!
Obviamente, isso chamaria atenção, mas Ileus logo enviou uma flecha que passou alguns centímetros por cima da cabeça do arqueiro mais próximo o fazendo perder a sua pontaria enquanto Orth se aproximava dele.
Corri para o lado direito e ia ganhando terreno de árvore em árvore enquanto o arqueiro do meio, confuso, não sabia se tentava acertar a mim ou a Umbauma que também avançava de árvore em árvore.
Orth estava bem próximo do primeiro arqueiro que apontava para ele de uma distância que não teria como errar se não tivesse sido atingido no braço por uma flecha de Ileus. No instante seguinte Orth partia sua clavícula fazendo um belo de um estrago com sua espada longa antes de terminar o serviço espetando de cima para baixo.
Enquanto isso Umbauma arremessava sua faca de osso no arqueiro restante fazendo-o se desestabilizar tempo o suficiente para eu descer nele partindo sua mão e arrancando sua orelha para logo em seguida o livrá-lo de sua agonia perfurando seu coração.
A vitória era nossa, mas havia sido uma vitória amarga.
Enquanto Umbauma recuperava sua lança, que estava fincada no peito do arqueiro mais distante, eu me dirigia para onde estava Ranik para encontrá-lo agonizando no chão com uma flecha no meio do peito.
Ileus ajoelhado a seu lado, chorava alto enquanto segurava sua mão esquerda. Orth a sua frente tinha o semblante fechado em dor enquanto o garoto moribundo chiava pela falta de ar. Ele já não conseguia mais falar, mas pela forma que movia sua boca era fácil entender o que ele dizia: “me mata”.
Orth levantou a espada e, num só golpe, limpo e certeiro, separou a cabeça do corpo do garoto. Era o melhor a ser feito. Não tinha mais como salvar com uma ferida daquela e ele agonizaria por vários minutos ou horas antes de morrer.
Ileus tomou um susto e pulou para trás, já que não esperava pela ação tão ágil de Orth. Ficou olhando atônito antes de se virar vomitando para o lado.
— Por que você fez isso? — ele se levantou gritando contra Orth.
Eu que estava de seu lado, puxei-o pelo braço, o fiz olhar nos meus olhos e lhe disse:
— Foi um ato de misericórdia. O pulmão dele estava estourado. Ele ia agonizar por horas sentindo dores terríveis antes de morrer. Com uma ferida dessas, não tinha como salvar.
O garoto ficou me olhando aterrorizado, mas não retrucou. Eu o soltei e ele se encolheu no chão, soluçando.
Orth olhava para Ileus, provavelmente se lembrando de si no passado, quando as batalhas da vida lhe haviam tirado a inocência. Então eu me aproximei, o olhei nos olhos e disse:
— Mais cedo, naquela sua história. Quem morreu, na verdade, não foi seu amigo e sim a garota, certo?
Ele arregalou os olhos por apenas um instante e depois seu olhar voltou a ser de profunda tristeza como antes, mas algo me dizia que desta vez a tristeza não era só por Ranik e sim pelo garoto Orth quando este perdera sua inocência há muitos anos.
Me lembrei de outras conversas que tive com ele, em momentos de descontração enquanto bebíamos, em que ele me contou que sua mãe o chamava carinhosamente de pequeno touro. E na sua língua natal, falada em Rejkesh, a palavra para “pequeno touro” era “Ermatu”.
Alguns garotos são maus, antes de aprenderem o que verdadeiramente é a maldade, porque a maldade não passa de um tipo de ignorância.
Depois disso, Ileus quis que enterrássemos Ranik, mas como não sabíamos se poderia haver outra leva de atacantes ou o que eles queriam, não convinha ficarmos ali. Talvez esses homens fossem só assaltantes tentando se aproveitar dos viajantes aqui ou talvez eles fizessem parte de algum dos exércitos da região. E nesse caso, provavelmente haveriam mais homens vindo para cá. Não podíamos arriscar. Quanto antes chegássemos na cidade para podermos vender nossos serviços a algum dos exércitos, melhor seria. Não é bom negócio para um grupo de mercenários lutar sem serem pagos por isso, e essa região era um caldeirão em ebulição.
Levantamos acampamento e seguimos rumo as montanhas de Eloina onde acabamos enfrentando outro grupo de homens armados, mas essa história fica para outra vez.