Conjuração maligna

Demônio formado numa poça de sangue no chão.

Ele acordou sentindo a cabeça um pouco pesada. Estranhamente, estava pendurado com as duas mãos atadas a uma corda que pendia de uma viga no telhado.

Observou o ambiente e tentou se situar. O local parecia um tipo de oficina, a julgar pelas bancadas, junto a uma das paredes que possuía painéis com ferramentas. Alguma luminosidade entrava por meio de pequenas janelas no topo de uma das paredes, mas elas não eram grandes o suficiente para uma pessoa passar.

Amarrado com uma corda à perna de madeira de uma das bancadas, estava um porco grande que grunhia ocasionalmente enquanto investigava o chão a procura de algo para comer.

Havia um círculo desenhado no piso de cimento com algo que parecia ser carvão.

O homem estava pendurado sobre esse círculo e seus pés não tocavam o chão. Sentia seus braços doloridos e dormentes pelo esforço de sustentar o peso do corpo e pelo aperto das cordas amarradas em seus pulsos.

Se balançou tentando se soltar, mas só o que conseguiu foi machucar ainda mais os pulsos que já estavam bem marcados e esfolados em alguns pontos.

Começou a gritar por socorro, mas depois de quinze minutos sem nenhuma resposta, se aquietou e se concentrou nos sons que escutava. Lá fora, pássaros cantavam e havia ruído de cigarras. Deveria estar em alguma área de mata porque esses não eram os ruídos típicos da cidade. Não havia som de carros, nem sequer de vozes.

Tudo estava estranhamente calmo, exceto seu estado interior que se agitava com a constatação de que, talvez, ninguém viesse para o socorrer. Não sabia onde estava nem como chegara ali. Tentou se lembrar.

No dia anterior, se encontrou com uma mulher que conheceu pelo Tinder. Muito bonita, de olhos verdes, longos cabelos negros ondulados, corpo escultural. Foram a um bom restaurante. Comeram, conversaram, se divertiram.

Ele nem acreditou quando, no final da noite, ela o convidou para ir a um motel. Pensou ter tirado a sorte grande. Eufórico deixou que ela escolhesse o lugar e, embora tivesse achado estranho ela lhe fazer atravessar a cidade da zona leste para a oeste, logo deixou de pensar nisso quando entraram no estabelecimento na rodovia Raposo Tavares. Talvez ela só quisesse evitar encontrar alguma pessoa conhecida.

Era só isso que ele se lembrava. Depois de terem entrado no quarto, sua próxima lembrança era de estar acordando ali pendurado. Chegou a conclusão de que fora dopado de alguma forma e passou a se xingar mentalmente. É claro que caiu em uma cilada. Se sentiu um idiota por ser pego num “boa noite Cinderela” tão obvio. Como que uma mulher tão bela, parecendo uma top model ou atriz de TV se interessaria por um homem como ele, sem nenhum atrativo especial?

“Estúpido, estúpido e estúpido!” Se fustigou mentalmente.

Ela deve ter algum cúmplice que a ajudou a carregá-lo para o carro.

Conforme pensava, seu medo crescia. Se eles só fossem o roubar, não teriam tido o trabalho de o levar para aquele lugar, ou teriam? Ele não tinha muito dinheiro, não faria sentido o sequestrarem por resgate. Começou a se lembrar de notícias sobre roubo de órgãos para o mercado negro e seu medo se tornou desespero. Começou a gritar por socorro novamente. Nada.

Passou o dia, a tarde e a noite chegou.

Ele estava de olhos fechados quando escutou o barulho da fechadura sendo aberta. Sentia fome, dor e muito desconforto. Abaixo de seus pés havia se formado uma poça, pois não conseguiu segurar a vontade de urinar após tantas horas pendurado.

Assim que ela entrou, fechando a porta atrás de si, ele notou com estranhamento que não era assim tão bonita, embora não fosse feia. Ele sabia que era ela, mas não era daquela forma que se lembrava dela. Aquela mulher que ele via agora era alta e magra e aparentava ser mais velha pelas linhas de expressão no rosto. Seus olhos eram castanhos e não verdes embora a pele tivesse o mesmo tom moreno.

— Quem é você? O que quer de mim? — Questionou ele enquanto ela se aproximava trazendo um saco de estopa, daqueles de entulho, em uma das mãos.

Ela colocou o saco em cima de uma das bancadas e começou a tirar dele alguns objetos que foi espalhando próximo do saco. Um deles era uma garrafa de madeira tampada com uma rolha que ela removeu. Verteu um líquido escuro em uma cuia negra que trouxe até perto dele.

— Olá, Beto! Beba isso — disse ela enquanto esticava a cuia para o alto e a aproximava da boca dele.

— O que é isso? — respondeu Beto fazendo uma careta com o mau odor que vinha daquele líquido que, de perto, tinha um aspecto estranho com uma espécie de nata escura oleosa boiando por cima.

Ele se recusou a beber o líquido, virando o rosto para afastar sua boca enquanto ela tentava aproximar a cuia.

Segurou o rosto de Beto com a mão livre, pressionando nas laterais de sua boca. Tentava fazer com que a abrisse, mas o homem se debateu e, embora a mulher fosse forte, muito mais forte do que Beto esperava, acabou afastando-a com um chute, fazendo com que derrubasse, no chão, um pouco do conteúdo da cuia.

— CARALHO, SUA MALUCA!… O QUE VOCÊ QUER DE MIM? QUE BOSTA É ESSA? — gritou, balançando de um lado para o outro num meio giro que o colocou de costas para ela.

Quando girou de volta sentiu algo batendo na lateral de seu abdômen e deu um grito de dor. Antes que pudesse fechar a boca, a mulher despejou nela o líquido da cuia e rapidamente forçou sua boca a fechar, colocando a mão em seu queixo e fincando unhas compridas na carne abaixo de seus olhos. Ela tinha bastante força e ele acabou engolindo o líquido enquanto lutava para se soltar.

Assim que a mulher se afastou, Beto tentou cuspir no chão, mas já havia engolido a maioria daquele líquido que, além de cheirar mal, tinha um gosto amargo horrível.

— SUA PUTA! QUE BOSTA É ESSA QUE VOCÊ COLOCOU NA MINHA BOCA?

Tomou um tapa na cara que estalou alto.

Ela se abaixou no chão e pegou o pilão de madeira que havia usado para bater no baço de Beto, forçando-o a abrir a boca. Voltou para a bancada e deixou ali o pilão e a cuia.

Beto começou a chorar.

— Por que você está fazendo isso comigo, Amanda?

— Meu nome não é Amanda. Alguns me conhecem pelo nome de Ilaia, outros pelo nome de Aniamampá. — respondeu enquanto se aproximava de uma coluna de concreto onde estava presa a corda que ia até a viga no teto, de onde descia até os pulsos de Beto.

Ilaia soltou um nó e desceu beto de forma que ele pudesse encostar os pés no chão, então amarrou a corda novamente. Ela parecia saber o que estava fazendo. Beto sentiu um alívio enorme embora ainda não pudesse abaixar as mãos.

A mulher se aproximou dele e acariciou seu rosto, colocou as duas mãos em seu peito e mergulhou o olhar em seus olhos.

— Preciso de você, Beto. Sou uma feiticeira e preciso da sua ajuda para trazer para esse mundo, uma criatura mítica.

Olhando nos olhos da mulher, Beto sentiu algo muito ruim. Um calafrio percorreu sua espinha e um peso frio no estômago.

— Precisa de mim, como? — Perguntou pesaroso, com receio do que iria ouvir.

— O feitiço que vou fazer aqui, precisa de energia sexual para a invocação. Você é o polo positivo e eu o negativo. Além disso, preciso de matéria masculina para canalizar a invocação da entidade que é masculina.

— Mas… por que eu? A mulher com quem saí ontem é parente sua? Onde ela está? — perguntou ele aproveitando que ela parecia agora disposta a falar.

— Nada em especial, você foi o que respondeu mais rápido e com quem consegui marcar o encontro antes. Sabe que até cheguei a pensar em escolher outro? Você foi um cara bem descente no nosso encontro ontem. E parece ser um cara legal. Só que estou sem tempo. Preciso realizar esse trabalho hoje que os astros estão na posição propícia — enquanto falava, a feiticeira passava as mãos entre o peito e os ombros de Beto, alisando provocativamente.

— “Nosso encontro”?… Então era mesmo você? Mas você está diferente — afirmou com estranhamento.

— Pra maximizar minhas chances, eu coloquei um feitiço em você. Ontem você me via da forma que mais gostaria que eu fosse. Mas eu não sou tão ruim assim, né? — Ela sorriu e desabotoou a camisa que usava, mostrando seus seios num sutiã rendado.

— Não, claro que não! — Beto balançou a cabeça negativamente. — Quer dizer… você é bonita!

Mas concordava mais por medo do que por ser verdade. Os seios da feiticeira pareciam firmes, apesar de sua aparente idade e de ela não ser tão peituda quanto ele vira no dia anterior. Entretanto, Beto estava com muito medo e não conseguia focar sua mente em sexo agora. Tudo que pensava era em conseguir uma forma de escapar dali.

Ilaia foi até a bancada onde deixou a camisa e o sutiã que havia tirado. Depois se virou e voltou com o peito desnudo.

— Eu já fui muito atraente quando mais nova e quero voltar a ser. Quando o senhor do submundo estiver revestido de matéria desse mundo, ele vai me procurar e servirei como sua mulher para gerar seus filhos. Em troca, ele me fará imortal. Eu me tornarei a mulher de um Deus e reinaremos nesse mundo e em outros. Meu corpo será rejuvenescido e eu também serei como uma Deusa.

Enquanto falava, a feiticeira pressionava um seio contra o outro insinuante. Ela se aproximou de Beto e passou as mãos em seu corpo sensualmente, primeiro em seu peitoral, depois seu abdômen e foi descendo alisando sua genitália. Abriu seu zíper e puxou o pênis para fora.

Beto espantado olhava calado, de boca aberta. Aquilo parecia surreal demais para seu cérebro simplório processar. Foi quando sentiu a boca úmida da feiticeira em seu membro que, estimulado, se endureceu.

Se não fosse a estranheza da situação, as dores que sentia e o cansaço, estaria se sentindo muito excitado e fetichista, mas sentia as mãos dormentes e estava muito cansado. Logo sua ereção diminuiu e seu pênis ficou naquele estado nem mole, nem duro.

A mulher parou de chupar e olhou para cima ainda segurando seu membro com as mãos:

— O que está acontecendo? Eu não te excito?

— Excita! Mas eu tô sentindo dor, estou com medo, estou todo mijado… Como você consegue colocar a boca no meu pinto desse jeito?… Olha… Me solta e me deixa descansar um pouco que eu faço com você — disse ele tentando cavar uma oportunidade de fugir.

A feiticeira fechou o semblante. Se levantou decidida e foi até a bancada onde começou a mexer nas coisas que havia tirado do saco.

— Se não vai espontaneamente, vou ter que dar outro jeito. Pro feitiço funcionar, eu preciso do intercurso. Faz parte do processo da geração de vida física.

De onde estava, Beto não via direito o que ela estava fazendo. De costas para ele, contra a bancada, viu apenas que pegou o pilão e mais alguma coisa que começou a macetar.

— O que você está fazendo? Me solta por favor! — Ele pediu choroso.

Em pouco tempo ela estava de volta com a cuia novamente na mão. Beto balançou a cabeça negativamente e começou a chutar, dar coices. Usando toda a força que lhe restava.

— VOCÊ NÃO VAI COLOCAR ESSA PORRA NA MINHA BOCA DE NOVO SUA MALDITA!

Ilaia começou a circular em volta dele tomando cuidado para não ser atingida por um chute. Conforme ele se virava desesperadamente, tentando acertar o pé na mulher, a corda foi torcendo e apertando mais até que ele não aguentou e se desequilibrou ficando pendurado arrastando os pés no chão.

Aproveitando o momento, ela se aproximou rapidamente, com o olhar chispando em fúria. Enfiou-lhe a mão no pinto e apertou. Quando ele abriu a boca num grito de desespero e dor ela enfiou o conteúdo da cuia em sua boca e o forçou a engolir da mesma forma que fizera antes.

Novamente o gosto amargo. Lagrimas brotaram no canto de seus olhos e, engasgando, ele acabou engolindo tudo o que ela despejou em sua boca. Depois começou a cuspir, mas sabendo que já havia engolido o que não queria.

A mulher foi até um canto, pegou um banco de madeira que estava lá e voltou para o lado da bancada onde se sentou olhando duro para seu prisioneiro que começou a chorar e balbuciar aflito:

— Por quê? Por quê? O que foi que eu te fiz? Eu só queria ser feliz como todo mundo… Eu te tratei bem! Você mesma falou…

A feiticeira ficou calada por alguns minutos, com um ódio palpável no olhar, observando Beto soluçar largado com os joelhos meio dobrados deixando a corda sustentar seu peso.

Quando ela falou novamente, sua atitude era altiva e rígida:

— Você não quis cooperar. Eu preciso que você coopere. Por bem ou por mal. Ninguém vai me impedir de conseguir o que quero!

— O que era aquilo que você me fez engolir? — Beto perguntou ainda choroso.

— Viagra — ela respondeu seca.

Beto levantou o rosto e olhou boquiaberto.

— Mas… o gosto era o mesmo de antes!

— Tive que diluir em alguma coisa.

— Você não vai me dar água? Estou com sede. Passei o dia aqui pendurado.

— Não.

Beto se calou e olhou para o chão. Se sentia fraco e seus braços doíam muito. Se apoiou nos pés. Entretanto, o desconforto continuou. Olhou para cima. Seus pulsos agora estavam bem machucados, esfolados pela corda.

O tempo passou e depois de cerca de quarenta ou cinquenta minutos, a feiticeira se levantou com um sorriso no rosto. Beto olhou para baixo, seu pênis estava ereto, latejando. Ela tirou a calça jeans que estava usando e a calcinha. Se aproximou ameaçando, séria:

— Se você não cooperar, eu vou te bater com um chicote até arrancar sangue das suas costas.

Beto continuou calado. Ele tinha medo e ela já demonstrara que conseguia ser realmente má.

Ilaia se virou de costas, se inclinou e encaixou o pênis dele em sua vagina. Começou a se mover em um vai e vem. O segurou pelas nádegas com suas mãos e ordenou:

— Se mexe! Me ajuda!

Ele começou a se mover. Achava aquilo um absurdo, mas como estava preso àquela situação, sem escolha, resolveu que mostraria para aquela mulher, o quanto ele era macho. Começou a estocar com força e foi aumentando a velocidade.

A feiticeira começou a gemer alto e ele se sentiu empoderado. Se empenhou por acertar fundo. Queria que ela sentisse dor. Por um momento pensou: “Eu vou te quebrar no meio!”. Começou a se sentir excitado de verdade. Ela já não conseguia mais se segurar a ele. Se inclinou mais e se apoiou no joelho enquanto ele a penetrava com força.

— Toma isso, e isso. Não é isso que você quer? — disse ele enquanto estocava com violência.

Ilaia se esforçava para manter o equilíbrio e não ser empurrada para frente. Então ele chegou ao clímax e parou estendendo os músculos da perna e empurrando o corpo para a frente como se quisesse entrar em seu útero. A feiticeira levantou um pouco seu tronco e o segurou pelas nádegas, o mantendo bem junto de seu corpo enquanto o sentia em pequenos espasmos dentro de si. Quando notou que ele acabara, se soltou, andou um pouco e, se virando de frente para ele, se agachou com as pernas abertas. Esperou o esperma escorrer para fora. Seu olhar inexpressivo o observava.

Depois de algum tempo se levantou e foi até a bancada onde pegou uma faca. Foi até onde estava o porco e o desamarrou puxando-o para o lugar onde deixara o esperma cair no chão. Num golpe brusco e certeiro, enfiou a faca no pescoço do porco que caiu, guinchando e se esperneando. Ela o segurou com força, arrancou a faca e esperou até que a vida do bicho se esvaísse junto a seu sangue que formou uma enorme poça.

Beto assistia àquela cena espantado, boquiaberto. “Essa mulher é louca! Só pode ser louca!” pensava. Como se a coisa não pudesse ficar mais macabra, a feiticeira começou a entoar um cântico em uma língua desconhecida, ora monótono, ora agitado. Parecia um lamento.

Ela se levantou e foi até o balcão onde pegou, com a mão livre, um punhado de folhas que trouxe até próximo do porco. Se abaixou e molhou as folhas no sangue que ainda pingava da garganta do porco. Veio até ele e bateu com as folhas em seu rosto. Esfregou-o lambuzando de sangue. E a todo momento a cantoria/lamento continuava.

Assustado com tudo aquilo, ele olhava para o rosto da feiticeira, até que sentiu que ela apoiava a ponta da faca em sua barriga. Desespero. Começou a implorar:

— Por favor, não me mata! Faço tudo o que você quiser! Vou ser seu escravo sexual pra sempre!

Ilaia não parou seu lamento e não pareceu se importar com a angústia de Beto. Ele observou novamente seu rosto quando escutou o barulho de algo sendo rasgado. Olhou para baixo e viu que ela havia puxado o tecido de sua camisa contra a faca e depois terminou de rasgar com as mãos. Passou as folhas melecadas de sangue em seu peito e sua barriga, agora descobertos. Os trapos restantes da camisa continuaram pendurados pelas mangas em seus ombros.

Viu quando ela se afastou, foi até o porco e, para seu horror, enterrou a faca na barriga do bicho abrindo de um lado a outro. Meteu uma mão e puxou as tripas para fora. A cantoria parou. Se agachou e ficou observando as tripas durante algum tempo. Depois se levantou e puxou-as para a frente esticando-as até o meio do caminho que levava a ele, onde as soltou. Veio a seu encontro, deixando pegadas de sangue no chão. Parecia uma lunática, nua, com o corpo todo sujo de sangue, os cabelos desgrenhados em sua cabeça.

Beto teve medo. De tanto medo, se esqueceu de reclamar, de implorar, de tentar se debater mais uma vez mesmo que fosse em vão. Ela parou novamente em sua frente e o observou. Esticou a mão e acariciou-o contornando o formato de seu rosto. Naquele momento seu olhar parecia de ternura e isso foi muito mais apavorante do que os olhares de ódio que ele já havia visto em seu semblante.

Uma estocada. Sentiu a faca entrar em seu ventre. Olhou para baixo e viu em terror que ela o cortava de um lado a outro. A cena se passou diante de seus olhos em câmera lenta. A feiticeira enfiou a mão em suas entranhas e puxou para fora suas tripas da mesma forma que tivera feito ao porco. Saiu puxando enquanto o homem urrava de dor. Deu dois passos para trás, se abaixou, pegou as tripas do porco no chão e amarrou as duas, unindo as tripas do porco as suas.

Estava terminado o ritual. A dor era absurda.

Ela jogou a faca para longe sem se importar com onde cairia. Se aproximou dele. Sustentava o mesmo olhar de ternura, colocou a mão em seu rosto e falou:

— Não se preocupe. A dor vai passar… Quando ele começar a te alimentar. Ele precisa que você fique vivo durante sua gestação. Pra que você também o possa alimentar. Eu sei que isso é horrível, mas era a única forma. Não vou mentir. Isso não vai ser fácil pra você. Há dores que são piores que as dores físicas.

Dito isso, ela foi até a bancada, pegou um pedaço de pano e tentou limpar da forma que pode o sangue de seu corpo. Levou alguns minutos. Depois se vestiu novamente, se calçou e foi embora sem olhar para trás. Fechou e trancou a porta atrás de si.

E beto ficou lá pendurado, com as tripas para fora. Sentindo uma dor indescritível, como nunca tivera sentido antes em sua vida inteira. A dor era tanta que ele não conseguia nem raciocinar direito. Lembrou dos pedaços de carne pendurados no açougue e se sentiu como eles. A diferença é que ele estava vivo por enquanto. Depois disso ele tinha certeza que iria morrer. Agora ele só queria que fosse rápido para dor acabar. Foi se sentindo fraco… fraco… Apagou.

─── ✾ ───

Algumas horas depois, Beto acordou ainda se sentindo muito fraco, mas já não sentia tanta dor. Tinha um pouco de dor na região abdominal e seus braços estavam completamente dormentes. Só conseguia mover a cabeça e os olhos. Pareceu-lhe que estava realmente morrendo.

Olhou para frente e viu sua tripa ligada à tripa do porco. Começou a chorar.

Como que uma pessoa, um ser humano, conseguia fazer uma atrocidade daquelas a outra pessoa? O que aquela mulher lhe havia feito era desumano. Ela era um monstro!

Ficou sofrendo por um bom tempo pensando nas coisas que gostaria de fazer na vida, mas que agora não poderia mais. Queria conhecer outras mulheres, se relacionar mais, se casar, ter filhos. Queria poder voltar a ver sua mãe. Gostaria de poder se despedir dela. Seu pai já não era mais vivo. Pensou se poderiam se encontrar do outro lado.

Será se existia outro lado? E se a vida acabasse ali? Morto desse jeito escroto, com as tripas amarradas nas tripas do cadáver de um porco? Apagado da existência por uma maluca. E aquele papo de “trazer uma criatura…” Como ela disse mesmo? Uma criatura da mitologia?… Uma “criatura mítica”, foi isso que ela disse…

“Puta merda! Tô fodido!”

Olhou pela janela e viu o céu escuro da noite. Dava para ver um pedaço da lua. Ela estava bonita. Devia estar cheia. Tanta coisa que ele não poderia ver mais por causa daquela bruxa. Começou a sentir raiva. “E o mar?… Nunca mais poderei ver o mar!”

Odiou aquela mulher e começou a desejar que ela morresse. Que alguém a fizesse sofrer o que ele estava sofrendo agora. Que a amarrassem, a violassem, enfiassem uma faca na barrida dela, puxassem as tripas dela para fora do jeito que ela fez com ele. “Puta merda! Ela puxou minhas tripas pra fora!!”

Foi então que ele percebeu algo estranho. Um barulho esquisito. Parecia um barulho de… bolhas estourando?… De onde vinha aquilo? Passou a vista pelo ambiente, viu o corpo do porco, o sangue a sua volta. Mais barulho de bolhas estourando…

Olhando para a poça de sangue no chão, no local onde a feiticeira havia se abaixado quando fez o que quis dele, estava formando algo estranho e naquele lugar é que estavam se formando aquelas bolhas.

Ele começou a prestar atenção. Então as bolhas pararam. Mas ainda assim, era estranho como o sangue parecia estar se aglutinando ali. Observou mais algum tempo, mas perdeu o interesse e passou a divagar.

“Tem algo diferente.” Pensou. Não estava mais sentindo dor. Na verdade, perdera a sensação dos braços, da perna, do ferimento na sua barriga. Estranhamente, já não sentia dor alguma.

“Ok!” pensou. “Agora só tenho que lidar com o tédio. Logo tudo vai ter terminado!”

Olhou para as bancadas, tentou enxergar quais ferramentas existiam ali. Correu os olhos por todo o recinto. O que seria aquele lugar? Talvez uma oficina? Não parecia ser mecânica. Uma marcenaria talvez? Reparou nas bancadas de madeira. As ferramentas fixas nos painéis eram ferramentas básicas, alicates, chaves de fenda, chaves Philips, chaves de boca, martelo, cerrote, serrinha. “Acho que isso deve ser um quartinho de utilidades de alguma chácara ou sítio no interior.”

Fazia sentido. Por isso ela o levou para um motel na Raposo, na mão que vai para interior. Se sentiu um idiota. Por que não pensou nisso antes? Na possibilidade de lhe darem um “boa noite Cinderela… ou Cinderelo no caso, né?” Começou a rir. “Puta que o pariu… tô aqui morrendo e ainda to fazendo piada sem graça…”

— Sss… fff…

“Que foi isso?” Pensou olhando para todos os lados, mas tomou um susto com o que viu bem na sua frente, no lugar onde estava borbulhando antes, agora existiam linhas de sangue coagulado no chão e no centro estava se formando algo que parecia uma boca.

— Ssse… fffu…

— Meu Deus do Céu!! Que merda é essa?

— Sssssseeee… fffffuuu…

— Tem uma boca se formando no chão?

— Sssseee… ffffffuuuuuddh…

Aquilo era surreal. Beto sentiu um frio subindo pela espinha. Uma sensação muito ruim. Um peso na barriga. Talvez fosse por conta do ferimento. De ter suas tripas puxadas para fora. Aquilo já deveria estar infeccionando, olhou para baixo e tomou mais um susto. A tripa saindo de sua barriga estava preta, completamente preta, como se tivesse sido queimada, e às vezes parecia ter uma leve movimentação como se algo passasse por dentro dela.

— Sssseee… fffffuuuddddehhh…

Olhou novamente para aquelas linhas no chão e agora estava bem mais nítido, era um rosto. Estava se formando um rosto no chão e sua boca se movia produzindo aquele som.

— Ssseee ffffuuudddeeeuu… ha……… ha… ha… hahaHAHAHAHAHAHA!

— TEM UM CAPIROTO SE FORMANDO NO CHÃO!!… E ESSA PORRA TÁ RINDO DE MIM!!! — Beto disse em voz alta, quase gritando, sem nem notar que havia verbalizado.

— HA HA HA HA HA HA HA!…

Um medo palpável se estampou no rosto de Beto. Ele não conseguia tirar os olhos daquela criatura que agora parecia também ter olhos e o olhava de volta. Aquilo no chão continuou rindo, contrariando todas as leis da física. E parece que estava sugando o sangue porque, o que antes estava espalhado por todo o chão, agora parecia aglutinado no centro.

Em alguns minutos havia se formado um rosto completo e ele era vermelho como o sangue. Era como se fosse um crânio humano feito de sangue, de onde saiam raízes ou veias que se espalhavam pelo chão. Seus olhos eram avermelhados e agora tinha também uma boca com dentes e caninos pontudos. A figura era a coisa mais sinistra que Beto viu em toda a sua vida. E ele sorria para beto. Seus olhos estavam vivos e se moviam. Passou a língua pelos dentes junto a uma gengiva ossuda e riu.

— HA HA HA HA HA HA HA!

Beto estava petrificado no lugar e não tinha coragem de dizer nenhuma palavra. Seu medo era tanto que tinha certeza que se borraria se ainda conseguisse sentir alguma coisa da cintura para baixo.

Durante cerca de mais meia hora aquela coisa apenas sorriu para Beto enquanto, estranhamente ia cada vez mais tomando forma. Agora era uma cabeça por completo e tinha um torço se formando. E como era sinistro. Era a figura de um demônio. Exalava malignidade. Então ele falou. E sua voz era gutural, rasgada, sombria:

— E aí? Vai ficar só me olhando?

Beto não respondeu nada. Não teve coragem.

— Você sabe que vou me levantar daqui, né? Logo eu vou botar pra quebrar no seu mundo e você vai pra terra dos pés juntos!

Sabendo que não podia fazer nada, Beto continuou calado, com medo de conversar com aquela criatura bestial. Ele começou a pensar em como estaria correndo para longe dali se pudesse. Mas se sentiu um miserável por não possuir mais praticamente nenhuma mobilidade.

— Ah para com isso! Vai se acovardar agora seu merdinha? Vamos aproveitar que não tem nada pra fazer aqui e bater um papinho, que tal?

Beto estava de olhos arregalados observando a formação do corpo da criatura. Ela se formava numa velocidade tão incrível que era possível notar o crescimento de membros. Seu torço agora estava praticamente completo.

— Vamos falar sobre a minha mulher. O que você achou dela? — Disse a criatura. — Gostou?… Não foi ruim vai!… Foder com ela!… Aliás… foi ela que te fodeu, né?… Meu irmão… ela te fodeu legal hein?… HA HA HA HA!

Beto começou a pensar na feiticeira e começou a sentir raiva. O demônio estava certo. Ela tinha literalmente fodido com ele, nos dois sentidos do termo! Um sentimento de puro ódio começou a dominá-lo.

Percebendo essa reação, mesmo sem que Beto falasse qualquer coisa, o demônio fechou os olhos e fez cara de quem estava saboreando algo. Beto olhou para aquele cordão preto que saía de si e que, há poucas horas, fora suas tripas e notou que aquilo estava vivo como que bombeando algo por dentro. Parecia com uma veia gigante, necrosada. Foi então que, para seu terror, percebeu que o cordão, na outra extremidade, se ligava ao umbigo da criatura.

O demônio começou a se mover. Agora ele já tinha braços e mãos. Fez um esforço e se levantou usando seus braços recém formados. Era agora um tronco com raízes sangrentas cravadas no chão, que pareciam vivas. Ele observava suas mãos recém-formadas com unhas negras pontudas como garras. Enfiou uma delas no buraco aberto na barriga da carcaça do porco ao seu lado, que agora parecia estar em estado avançado de decomposição, e conseguiu arrancar um pedaço de tripa que ainda devia ter restado no porco. Levou-a até o nariz, cheirou, e enfiou na boca. Arrancou um pedaço generoso que começou a mascar como se fosse chiclete.

Beto sentiu ânsia de vômito. Pensou que só não havia vomitado porque já não deveria haver mais nada para vomitar dentro de si.

Foi então que olhou para baixo e viu suas pernas mortas. Elas estavam muchas e secas como uma uva-passa. De alguma forma aquela criatura o estava comendo vivo. Se lembrou das últimas palavras que a feiticeira havia lhe dirigido antes de ir embora e viu aquele cordão umbilical macabro que um dia foram suas vísceras. Aquilo bombeava algo e agora ele sabia o que era. Sua própria carne e, provavelmente sangue e todo o resto também.

— Você está me comendo vivo! Vai me matar! — Disse Beto assombrado com a constatação.

— Ah para com isso. Você não está mais vivo! Ainda não está morto, mas não está mais vivo. E sim, eu estou consumindo a matéria do seu corpo. É custoso ter um corpo físico. De onde você acha que estou tirando a matéria para me formar?

— Filho da puta! — Beto xingou quase que sem pensar.

Ouvindo aquilo o demônio parou de mastigar por um instante, olhou para o Beto e riu. Um riso de pura satisfação. Como se fosse uma criança feliz com uma traquinagem.

— Não fala assim da minha mãe, pai! Ela vai ser minha esposa e eu exijo respeito — falou a criatura sorrindo, mas, na sentença final, ficou extremamente sério.

E como ele metia medo. Aquilo era literalmente uma criatura saída do inferno. O ar estava empesteado de uma malignidade quase palpável.

— Ah… pode falar sim. Ela é uma puta mesmo e eu vou comer ela direitinho. Que nem você fez. Foi bonito aquilo hein? Quase acertou a goela dela por trás… HA HA HA HA… só não acertou porque você tem pinto pequeno!… HA HA HA HA — enquanto falava, a criatura fazia sinal com a mão para demonstrar o tamanho do membro de Beto, como se tivesse um centímetro.

Nesse momento, o demônio sanguinolento começou a mover suas recém-formadas pernas e se apoiou com as mãos no chão dando um impulso para cima. Ficou em pé, um pouco cambaleante, depois agachou próximo ao que sobrou do porco e continuou comendo o restante. Comia como um glutão que nunca tivesse visto comida na frente. Era um espetáculo grotesco vê-lo comer.

Já não existia mais sangue no chão. De alguma forma o demônio o usara todo na formação de seu novo corpo.

A criatura terminou de devorar o porco e se levantou emitindo um arroto. Limpou a boca com o braço e emitiu uma gargalhada sinistra. Depois ele foi até as bancadas, pegou um alicate em um dos painéis e o observou enquanto falava:

— Sabe o que vou fazer quando eu sair daqui? — fez um suspense antes de concluir, e por fim: — vou lá visitar a dona Lourdes.

Beto arregalou os olhos. Como esse monstro sabia o nome de sua mãe?

— É, eu sei quem ela é! — o demônio disse enquanto se aproximava. — E também sei onde ela mora, lá na vila Iasi.

— VOCÊ DEIXA MINHA MÃE FORA DISSO, SEU PORRA! — Gritou beto.

E o demônio saboreou, satisfeito, tendo atingido bem no ponto que queria.

— Vou tirar cada uma das unhas dela com esse alicate. Será se vai doer? — ele se deliciava com a raiva de Beto com cada palavra que emitia. — E depois vou meter fundo nela, por trás!

A cada palavra, Beto ficava mais nervoso e o demônio parecia saborear aquilo. Todo aquele ódio fluindo para ele.

— Vou te mostrar como eu vou fazer!

Deu a volta e saiu do campo de visão de Beto que logo sentiu uma mão em um de seus ombros e outra no outro. Então o monstro começou a se mexer por trás dele, dando trancos tão violentos que pedaços de carne e sangue começaram a cair no chão. Beto não sentia nada. Ele não sentia nada da cabeça para baixo nem os braços acima de si, mas aquilo deu uma visão bem nítida para ele do que o demônio queria dizer e ele sentiu muito ódio misturado com medo. Tentava se mexer, mas não conseguia. Não tinha mais medo por si, pois sabia estar condenado. Seria impossível sobreviver. Mas temeu muito por sua mãe. E sentiu muito ódio por não poder fazer nada. Sentiu ódio da feiticeira e da criatura que lhe roubaram a mobilidade, o corpo, a vida.

Foi quando olhou novamente para o cordão umbilical negro que bombeava freneticamente que teve um “estalo”, um pensamento revelador. Ele estava sendo manipulado. De alguma forma uma compreensão muito profunda veio a ele naquele momento e ele resolveu tentar uma última coisa. A única que estava a seu alcance.

Fechou os olhos e começou a controlar a própria raiva. Passou a fazer exercícios de respiração. Começou a imaginar coisas boas. Paisagens belas, boas ações.

— O que você está fazendo? — Disse o demônio visivelmente preocupado.

Percebendo a reação, Beto começou a fazer uma oração mentalmente. Rezou primeiro um pai nosso. Mas não rezou só mecanicamente. Imaginou o significado de cada um dos trechos. Depois rezou a oração de são Francisco. A esse ponto, Beto já não sentia mais nenhum resíduo de ódio ou rancor e como seu corpo praticamente não existia mais, também não sentia nenhuma dor, nem física, nem moral, pois sabia dentro de si que não fizera nada de profundamente errado. Tentou não pensar em si como uma vítima. Visualizou o universo. Passou a tentar fazer a prática do amor compassivo que aprendera no budismo.

O cordão umbilical começou a ressecar e rachar. As pernas do demônio falharam e ele caiu no chão sem conseguir se controlar direito. Uma coloração esbranquiçada começou a subir pelo cordão umbilical indo da barriga de Beto, gradualmente, até o demônio que já não tinha controle suficiente nem para falar. Ele começou a se desmanchar no chão.

Beto não se sentia mais em seu corpo físico, tentou abrir os olhos, mas percebeu que também não possuía mais olhos. Começou a enxergar em 360 graus. Viu o demônio se desmanchando numa casca ressecada no chão que depois se tornou pó e se desfez. Viu seu próprio corpo murcho, inerte no chão, pois de tão esvaziadas as mãos, a corda não sustentou mais. Praticamente só sobrou a pele do corpo, ressequida, sem vida. Só o que não estava ressecado era seu rosto que estava com uma serenidade que ele nunca conseguira enxergar em si.

Então Beto parou de prestar atenção em coisas tão pequenas e começou a observar a beleza do universo. Agora ele era tudo e estava em todos os lugares. Já era capaz de entender o sentido da vida.

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